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Por uma garrafa de uísque

Aquele dia foi peculiar, mesmo para alguém como eu. Acordei com a cabeça doendo, resultado do excesso de álcool da noite anterior. Não conseguia lembrar como fora parar ali, mas sabia que estava em casa, na minha cama mofada e fétida. Tudo fedia no meu apartamento. A umidade pegajosa fazia as paredes exalarem um odor insuportável, que se misturava ao cheiro de comida apodrecida que vinha da pia e do fogão; o sofá era um monte de pano velho, poeira e pulgas; minha cama era muito antiga, e o colchão não passava de uma tira fina de espuma, que transformava as horas de sono em dores nas costas. E era só isso, um único cômodo sujo e bagunçado. O cheiro daquele lugar era inconfundível, e quando acordei tive certeza de que estava em casa.

Levantei e me vesti. Na verdade apenas joguei o casaco velho sobre os ombros, pois havia dormido com a roupa do dia anterior, nem mesmo havia tirado as botas surradas. Ao pôr os pés na rua, percebi que não tinha para onde ir. Caminhei sem destino pelos piores lugares da cidade, me repreendendo por reconhecer cada uma das figuras desdentadas e desgraçadas que encontrava. Quanto mais eu me envolvia com aquele mundo, mais eu odiava o meu destino.

A luz do dia estava indo embora, e tudo era cinza na cidade asquerosa. Minha cabeça parecia estar prestes a explodir, o pensamento era turvo, e acredito que ainda estava sob o efeito distante da bebedeira. Quando pus a mão no bolso percebi que tinha ali algumas moedas, então entrei no primeiro bar que encontrei, um estabelecimento mau iluminado e tão fedido quanto minha casa. Pedi uma dose de vodka e um pedaço de pão, uma das melhores refeições que tive naqueles dias.

Continuei caminhando sem saber para onde, sentindo o vento nos cabelos sebosos, e depois de algum tempo percebi que onde estava não era tão cinza e imundo. O bairro sujo ficara para trás, e as construções eram menos ameaçadoras. Aquelas ruas eram familiares. Lembrei-me de Joana, antigo amor. Na verdade era um amor bastante atual, pois nunca deixei de amar Joana, mesmo depois do que ela fez comigo.

Quando a conheci ela era serviçal na casa de meu pai. Encantei-me com seus modos simplórios, mas ao mesmo tempo impetuosos, e logo estávamos envolvidos. No começo meu pai ignorou, pois conhecia meu comportamento lascivo, mas quando percebeu que o caso já durava demais ele me repreendeu. Nós nos casamos escondidos, e fui viver num apartamento que minha família me dera quando completei vinte anos. Meu pai ficou tão irado que me deserdou, passou a me considerar morto, e meus irmãos nunca mais falaram comigo. Se ao menos eu os compreendesse. Na época acreditava se tratar de algum preconceito qualquer, quando na verdade era a visão sensata que eu ainda não possuía.

Joana me traiu nos primeiros meses de casamento. Cego, eu havia colocado quase tudo no nome dela, inclusive o apartamento. E usando uma astúcia que eu julgava não existir numa pessoa que professava tanto amor por mim, ela tratou de roubar quase todo o meu dinheiro. Trocou a fechadura do apartamento e fugiu. Os funcionários do prédio não permitiam minha entrada, e um porteiro confirmou que ela vinha se encontrando com outros homens. Nem quis saber quem eram. Fiquei completamente arrasado, e nunca mais procurei Joana. Também não procurei as autoridades para tentar reaver meus bens. Aceitei tudo como se não tivesse outra escolha, e passei a viver com uma quantia moderada de dinheiro que havia guardado ao longo da juventude, o pouco que Joana não conseguiu roubar.

Quando o dinheiro acabou eu me mudei para um cortiço na parte mais pobre do centro da cidade, e trabalhava em atividades braçais para poder pagar pelo apartamento imundo; a formação em Direito de nada serviu, pois meu pai garantiu que eu não conseguisse exercer a profissão. Boa parte do dinheiro que sobrava era gasto à noite em bares e prostíbulos que jamais sonhei frequentar. Odiava tudo aquilo, mas aceitei como se fosse meu por direito. Nunca quis me vingar de Joana, ou tirar satisfações, pois ainda a amava, e esse amor se misturava com algum tipo estranho de ódio, que ficava guardado em mim o tempo todo. Quando eu entrava em algum bar vagabundo eu sabia que era por causa dela; ou quando trabalhava limpando os banheiros do cortiço, eu sabia que aquilo era culpa dela; quando acordava em meu apartamento fétido sem saber como chegara ali, sabia que fora ela quem causara aquilo.

E naquele dia meus pés me levaram até a vizinhança do meu antigo apartamento. Uma curiosidade surgiu de repente: “Será que ela ainda mora lá?”. Caminhei até o prédio e me esgueirei por uma porta nos fundos, que dava para uma área de serviço.  As escadas e os corredores estavam desertos. No terceiro andar encontrei o apartamento. Arrombar a porta não foi difícil.

Não havia ninguém, mas os porta-retratos confirmavam que Joana ainda vivia ali. Muitas coisas estavam diferentes: os tapetes suntuosos eram novos, assim como as cortinas de seda; alguns móveis haviam mudado de lugar, e vários pareciam ser aquisição recente. Depois de tantos anos andando pelas ruas sujas, o cheiro de limpeza era reconfortante. A vida dela era o oposto da minha, e eu ainda a amava e me imaginava ao seu lado, desfrutando de tudo aquilo.

Tive a preocupação de observar se não havia nenhum homem em seus retratos. Aparentemente ela não havia se casado novamente. Vasculhei cada aposento sentindo os perfumes da aristocracia, e me sentia mal. De volta à sala, parei em frente à estante, cheia de bebidas caras. Não eram como os líquidos assassinos que eu tomava todo dia. Parte de mim dizia que eu deveria sair dali, mas o meu ego ferido exigiu uma compensação.

- Uma dose de uísque, pelo menos - sussurrei. - Eu tenho direito.

Um copo se foi, e mais outro logo em seguida. Sentei-me à mesa, e em menos de uma hora a garrafa estava vazia. Com a mente entorpecida, servi-me de mais uma. Saboreei cada gole da bebida que era minha por direito. Foi nesse momento que ouvi o som de passos no corredor, acompanhado de risadas. Não havia o que fazer a não ser permanecer imóvel, no escuro, aguardando o momento em que ela abriria a porta. Chave no trinco, e pude ouvir aquela voz tão familiar falando com um homem, brincando com ele, dizendo que ele não poderia entrar naquele dia. Flertou por alguns minutos e depois mandou-o embora.

Somente quando a porta estava trancada ela acendeu as luzes, de costas para mim. Colocou a bolsa sobre uma mesinha, despiu o casaco de pele, e já estava tirando o sapato quando se virou e me viu. Pensei que ela fosse gritar, mas acredito que o susto a emudeceu, e apenas seu rosto demonstrou pavor.

Ela demorou para me reconhecer, por causa da barba comprida e os cabelos sujos, pelos ombros, mas eu reconheci muito bem aqueles olhos sagazes. Ela estava linda. Aproximei-me, cambaleando, e ela pôs a mão na maçaneta, num esforço mudo para fugir de mim. E então percebi que seus lábios pronunciavam meu nome.

A partir daí tudo ficou confuso. Minhas lembranças não passam de um borrão, no qual Joana me abraça e me beija, e nós giramos pela sala como um casal feliz. Eu a amo tanto! Por muito tempo eu sonhei com ela, sonhei que podia tocá-la e sentir seu perfume, tocar-lhe os lábios num beijo apaixonado, como antes. É tudo tão confuso quando tento me lembrar daquela noite. Por vezes acredito que nós fizemos amor ali mesmo, como se não pudéssemos conter uma vontade que permanecera latente por tantos anos.

Nessas lembranças borradas, logo após o ato de amor, eu me sento na mesma cadeira de antes e bebo mais algumas doses de uísque, enquanto conto a ela o rumo que minha vida tomou depois que ela me abandonou e me deixou na pobreza. Essa é a parte mais lúcida das memórias; eu falava e ela me ouvia, sem demonstrar reação alguma. Eu chorei enquanto dava meu relato, e em certos momentos cheguei a insultá-la, por causa da mágoa em meu peito. Até que decidi ir embora. Estava convencido de que ela ainda me amava, de que me queria, mesmo que ela não dissesse isso. Mas era impossível, não poderíamos nos ver nunca mais. Eu me tornara outra pessoa, alguém amargo, bruto, impulsivo, repulsivo... E ela era delicada, como jamais imaginei que ela chegaria a ser.

Levantei-me. A partir daí as lembranças são bastante claras. Olhei ao redor e percebi o motivo do silêncio de Joana. Deitada sobre uma enorme mancha de sangue sobre o tapete, ela jazia praticamente nua. Seu vestido de festa fora reduzido a trapos. A pele branca estava coberta de arranhões, o cabelo despenteado. Os dedos estavam encurvados, como garras, com as unhas quebradas agarradas ao tapete, num gesto de desespero que era acentuado por seu olhar, vidrado, encarando o teto num esgar de terror. E para completar a cena, em seu peito estava meu canivete, que eu sempre carregava em minha cintura. Como foi parar ali eu nunca saberei.

E quando percebi o que havia acontecido ali, antes que o medo tomasse conta de meu corpo ébrio, peguei de volta meu canivete, guardei-o e fui embora, não sem antes de esconder outra garrafa de uísque no bolso interno do casaco. Não sei como cheguei em casa. No dia seguinte despertei com um gosto ruim na boca, e uma dor de cabeça monstruosa.

O mau cheiro de minha casa era inconfundível. O ciclo se repetia, um dia novo sempre idêntico ao anterior. Sobre minha mesa estava uma garrafa de uísque pela metade, suja de sangue, assim como minhas mãos. Percebi que não foi por acaso que minha caminhada sem rumo me levou ao apartamento de Joana.

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