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Girassol para o falecido

Krappweis
Este texto foi publicado, originalmente, em março de 2013.
Por uma razão que desconhecia, acabou comparecendo àquele velório, sem conhecer ninguém, nem mesmo o morto. E era contra velórios, achava o evento insólito demais, pessoas chorando ao redor de um cadáver encaixotado.

Algumas torradas e xícaras de café para aliviar o desconforto da cena, e ele se obrigou a chegar perto da estrela da festa. Levou um susto quando viu que, estirado no caixão diante dele, estava ele mesmo. Algodão nos ouvidos e nas narinas, terno preto ironicamente bem desenhado e cabelo penteado. No rosto macilento havia um sorriso abobalhado, daquele tipo de que suaviza o nervosismo.

Sentiu-se mal diante daquilo, uma fraqueza estranha, e também um vazio que desconhecia, uma mistura de tristeza e raiva, como se nada mais tivesse graça, motivo, sentido. Percebeu os olhos das pessoas, julgando-o. Não, ele não morreu, estava ali e todos os viam. Era apenas uma parte sua que havia falecido: a alegria. Aquele no caixão era sua porção feliz, a porção que se divertia com tudo na vida, que tornava suportável o mundo ao redor.

Constatou que era um egoísta nato, pois não sentiu pesar pela sua parcela defunta, apenas lamentou o vazio que ela deixara. Não conseguiria chorar pelo morto, como homenagem, mas queria prestar os devidos respeitos. Olhou ao redor, pedindo uma ajuda muda aos presentes, mas a expressão de tristeza mórbida dos desconhecidos era pouco convidativa. Foi até a janela para tomar um ar e deparou com um céu azul, onde o Sol brilhava feliz. E no jardim, bem de frente para a janela, havia vários girassóis, grandes e viçosos encarando o astro que viajava pelo céu.

"É isto", pensou. “O girassol é uma flor interessante. Seu amarelo traz uma certa alegria para qualquer ambiente, sozinho ou acompanhado, e sua paixão pelo Sol o torna um caçador de luz. Um girassol seria um bom presente..."

Escolheu a flor mais bonita e a colheu com bastante cuidado. Voltou para a sala e, diante do olhar modorrento dos estranhos, caminhou até o caixão, devagar como se medisse os próprios passos. Depositou a flor sobre as mãos postas do falecido, lamentando a falta que aquela sua parcela faria. Respirou fundo tentando espantar o mal estar, mas quase desmaiou, tamanho foi o susto que levou em seguida.

O morto pulou do caixão, sentando ereto diante de todos. Puxava o ar com força, os olhos arregalados.

Um suspiro de assombro percorreu a plateia, que no segundo seguinte explodiu em pandemônio. Todos corriam para todos os lados, gritando desesperados, pulando as janelas, derrubando a coroa de flores, os abajures, tudo. E no meio da algazarra o ressuscitado gritava:

- Eu voltei! Eu voltei! - E gargalhava cheio de insanidade.

Foi aí então que ele percebeu que as pessoas ao redor não estavam com medo, mas sim loucas de felicidade. Festejavam o retorno de sua parte alegre. A farra se estendeu por dias; a felicidade durou vidas.

Comentários

  1. Curti muito o texto. Tempão que não voltava aqui '-'

    blog-epitaph.blogspot.com

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  2. Que bom que gostou! Obrigado! Estou tentando escrever com mais frequência, e tem dado certo nas últimas semanas. Sempre tem algo novo. Obrigado pela paciência de ler! =]

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