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Mostrando postagens de Março, 2013

A última gota

A última gota do cantil, sugada com toda a vontade do mundo para matar a sede mais violenta. No meio do deserto mais vasto e árido, sob um sol escaldante e impiedoso, a última gota de água desceu pela garganta, abençoando aquele corpo maltratado, dando-lhe vida, mas anunciando a morte certa.
Assim foi o último beijo.

Silêncio quebrado

No fim do mundo havia um velho dragão, cuja alma era quase tão idosa quanto o próprio mundo. Ele não era um manso, mas amava a paz, adorava o silêncio de sua caverna e o gotejar incessante das águas que escorriam pelas estalactites. Adorava rasgar os céus em alta velocidade com suas asas gigantescas, varando as nuvens, mergulhando em direção ao chão e arremetendo quando estava prestes a tocar o chão.

Para continuar vivo

Escrevia para continuar vivo através das palavras. Nelas ele vivia o que queria, fosse como protagonista, antagonista ou expectador. Escrevia sobre a cor do céu e da grama, e sobre as sensações que o vento provoca, tentando descrever os odores que o ar carrega.

A lebre e o lobo

Num dia sem poesia, com a garoa fina criando uma névoa que escondia os prédios, como cortina branca e translúcida, ele encontrou a si mesmo, mas estava diferente. Não trazia aquele sorriso de sempre, e sim uma expressão áspera e esperta. Seu Eu áspero falou, e sua voz era cheia de sarcasmo.

Alma antiga

Sentia-se velho, sentindo saudades de um tempo que ele sequer vivera, memórias de uma época que não lhe pertencera. Sentia-se deslocado no tempo, como alguém que nasceu na geração errada. Descobriu que não era velho, mas possuía uma alma antiga, com cheiro de sebo, com ares de clássico, com toques requintados que só o tempo traz, como mobília reformada, retocada com verniz.

Olhando para o horizonte da vida, de Marina Colasanti

Estou lendo um livro de contos de Marina Colasanti, chamado Contos de Amor Rasgados, que reúne contos curtos e cheios de metáforas. Este aqui, Olhando para o horizonte da vida, me chamou a atenção pela maneira pessimista de enxergar a vida, e também pela relação entre a "mutabilidade da vida" e o "tédio". Além do contraste, a fala do tédio chega a ser debochada, como se a tal mutabilidade da vida fosse apenas um conto de fadas. Não concordo com tal pensamento, embora existam momentos em que isso faz todo o sentido. O conto é curto, mas é consegue ser um soco no estômago de quem sonha. Nos faz pensar na necessidade que temos de sentir esperança, e se somos mesmo senhores de nosso destino.

Subitamente tocado pela mutabilidade da vida, parou e perguntou-se:
"Meu Deus,onde estarei no ano que vem a esta hora?"
E do futuro, respondeu-lhe o tédio:"Aqui, quando então te perguntarás,onde estarei no ano que vem,e a resposta será: aqui. Quando então te pergunta…

Vulcões e lençóis

Na calmaria da noite ele a tomou nos braços, e o mundo se transportou para outra realidade. Só havia a luz fraca da noite inundando o quarto numa atmosfera surreal, quase fantasmagórica. Os lábios dos dois se uniram num misto de carícia e luta, um beijo agressivo mas cheio de dança, no qual as línguas se cortejavam com suavidade e movimentos lascivos.

Melodias guturais (ou Alegoria da Ira)

Aproximo-me devagar,
com passos suaves
sobre o chão de pedra,
respirando os fétidos ares
de minha velha caverna,
sob montanhas milenares.

Entoo uma melodia gutural,
para trazer calma ao morador,
ilustre Senhor das Chamas
que se despertado for,
vomitará sua ira,
seu fogo, seu esplendor.

Cantando eu consigo acalmar
o dragão, em seu sono agitado.
Anseio por sua amizade,
voar com ele, não domá-lo,
trazer-lhe à calma celeste
sobre o teto acinzentado.

Mas enquanto a fera majestosa
tem seus sonhos violentos,
só o que posso fazer é
entoar versos horrendos,
caóticos símbolos
de seu sangrento reino.
___________________________
Marlon Weasdor, 13/03/2013

Teto de nuvens

Roubaram o teto,
o Sol espantou as nuvens,
camas suaves que me confortam,
travesseiros celestes
onde eu gosto de dormir.

Removeram o teto
que cobria as colinas,
campos de esmeralda,
e hoje a luz avilta o mundo,
o calor agride as escamas.

Devolvam-me o teto,
meu teto de nuvens,
que me escondem deste azul,
meu teto acolchoado
que arde no fim do dia.

Não peço muito

- Como assim fugir?
- Sei lá, vou sair por aí, andando.
- Mas e o seu emprego, a faculdade?
- A faculdade é inútil, odiei o curso que escolhi. Não tem nada a ver comigo, saca? E o trabalho... bom...
- E como você vai viver? Vai virar mendigo?
- Não, só vou caminhar por aí, Tipo Forest Gump, mas ao invés de correr eu vou caminhar.
- Que bobagem! Você não pode estar falando sério!
- Por que não?